Como combater a falta de assunto: o que ser um adolescente tímido me ensinou sobre o marketing de conteúdos
Na minha adolescência, nada me intimidava mais do que uma situação social em que era preciso começar uma conversa. Hoje, no trabalho com marcas, constato que que algumas têm o mesmo bloqueio. Enquanto adolescente tímido, fui aprendendo umas formas de escapar à falta de assunto, que hoje ainda me dão jeito. E que também podem ser úteis para a sua marca nunca deixar morrer a conversa nas plataformas digitais.
Para muitos profissionais de comunicação, a descoberta da vocação vem de serem muito comunicativos. Para mim foi o contrário.
Durante boa parte da minha adolescência e juventude fui tímido. Extremamente tímido.
Ajudar marcas a dar nas vistas, a falarem bem de si próprias, a manterem-se visíveis foi talvez a minha maneira de aprender competências que não tinha para mim próprio.
Uma dessas competências, que me fazia falta nas situações sociais mais corriqueiras, era a capacidade de começar uma conversa. Face a desconhecidos, ou mesmo conhecidos com quem não tinha grande confiança, nada me apavorava mais do que a falta de assunto.
“E agora, como quebro este silêncio?” Esta pergunta aterradora nunca gerava uma resposta. Pelo contrário: bloqueava-me de tal maneira que, mesmo quando a outra pessoa tentava quebrar o gelo, isso apenas me congelava ainda mais.
Hoje, no trabalho com marcas, constato que algumas têm o mesmo bloqueio. Num tempo em que os pontos de contacto são inúmeros, as marcas que não sabem manter uma conversa contínua com as suas audiências levam uma enorme desvantagem. Mas conversar sobre o quê?
Enquanto adolescente tímido, fui obrigado a pensar muito sobre este tema. E fui aprendendo umas coisas, que hoje ainda me dão jeito em situações sociais reais.
Mas também são úteis quando tenho que ajudar marcas (e os líderes que dão a cara por elas) a não ficarem excluídas da conversa digital. Aqui vão algumas destas descobertas:
1) As pessoas querem conversar
Na cabeça de um tímido (e toda a gente, em algum momento, já se sentiu tímida) há um pensamento subjacente de que “os outros não querem saber de mim”. A simples expressão neutra de um desconhecido na festa é percebida como rejeição – quando, quase sempre, o outro está como nós: à espera de que tomemos a iniciativa.
Muitas empresas (especialmente business-to-business) e os seus líderes têm essa reserva quando se trata de comunicar, por exemplo, nas redes. Retraem-se – porque “o meu produto não é sexy”, ou porque o que têm a dizer não interessa a ninguém. Será verdade? Duvido, porque…
2) Pessoas interessam-se por pessoas
Somos animais sociais: para sobrevivermos, temos de estar sempre a observar quem está à nossa volta. Nem é por outra razão que, hoje, passamos tanto tempo nas redes, incluindo as “de trabalho”, como o LinkedIn. E a sua vida, ou a da sua empresa, são um objeto tão bom como qualquer outro para a curiosidade alheia.
Dito isto…
3) Pessoas interessam-se por si próprias
O assunto que mais interessa a cada um de nós somos nós próprios. Para iniciar uma conversa, nada ajuda tanto como perguntar-se antes: como posso fazer com que o tema gire à volta do meu interlocutor — dos seus problemas, dos seus objetivos, até do seu ego?
Isto pode significar resolver problemas, fazer perguntas, ou até falar de si próprio, desde que seja para partilhar algo útil para o outro. É o que estou a fazer neste texto. Reparou?
4) A primeira impressão é importante
A “economia da atenção” não nasceu com a internet e as redes sociais. O nosso cérebro, foi programado há milénios para decidir em microssegundos se vale ou não prestar atenção a um estímulo.
Por isso, a impressão que transmite nesse microssegundo é tão importante: o título, a imagem, a primeira frase que faz parar o dedo no scroll.
Mas, para um tímido como eu já fui, isto é o mais aterrador. E se falho? E se a minha tentativa de contacto é logo recebida com frieza? Daí ser tão importante não esquecer que…
5) A primeira impressão não é tudo
Não conseguiu quebrar o gelo? Experimente derretê-lo. Só precisa de um pouco mais de paciência: manter a conversa acesa até ela começar a aquecer.
Nesse aspecto, uma vantagem do nosso mundo frenético é que a memória coletiva é curta. Falhou a primeira impressão? Se a segunda ou a terceira forem, já ninguém se lembrará disso.
6) Apanhe boleias nas conversas dos outros
Nem sempre é preciso começar do zero. Muitas vezes, o mais fácil é entrar numa conversa que já está a acontecer.
Comentar, acrescentar valor, elogiar— tudo isto são formas naturais de se tornar visível sem parecer intrusivo.
Vale para as conversas reais. E vale para o online. O Linkedin, por exemplo, adora que você comente posts de terceiros – e retribui com mais visibilidade para o seu perfil.
7) Não faça da sua conversa um monólogo
Na mesma linha, quanto mais aquilo que você diz convidar a interações, melhor. Faça perguntas. Convide explicitamente outras pessoas para a conversa, identificando-as (mas não abuse). Proponha ideias provocadoras. Sobretudo, fale mais dos outros e dos que os preocupa do que de si mesmo.
8) Fale do presente
Falar do presente é sempre bom: mostra que você está antenado. E cria logo uma conexão com quem vive no mesmo tempo e espaço.
E, para quem padece de falta de assunto, a principal vantagem do presente é que é inesgotável: está sempre a fornecer temas para manter a conversa viva.
9) Se tudo falhar, fale do tempo
Falar do tempo pode ser caricaturado: é aquela conversa que deixa logo claro que está a faltar assunto. Mas por alguma razão continuamos a fazê-lo. O tempo é o melhor exemplo daquele aqui e agora de que falei no tópico anterior.
Mas o “tempo” não precisa ser o boletim meteorológico. Hoje, se não souber do que falar, fale da Inteligência Artificial. Faz o mesmo efeito.