A IA entra na empresa. O que acontece à cultura?
A adoção da IA em larga escala não implica apenas um tremendo desafio tecnológico e de gestão. É também um desafio identitário e cultural, que afeta o próprio sentido do trabalho e, com ele, a motivação e o envolvimento das organizações. Para a maior parte das empresas, pensar nisto ainda não é uma prioridade. Mas deveria.O mundo anda entusiasmado e ansioso com a IA. Nos dois casos, com ótimas razões.
O mundo anda entusiasmado e ansioso com a IA. Nos dois casos, com ótimas razões.
Do lado das empresas, muita da ansiedade vem do próprio entusiasmo: não podemos perder esse barco. Daí que as preocupações mais urgentes tenham um caráter técnico: que ferramentas usar? Como integrá-las? E como formar os trabalhadores para que se adaptem à revolução?
Quanto a esses trabalhadores, alguns dos seus receios são parecidos. Há um medo disseminado de perda salarial, de oportunidades de promoção ou do próprio emprego para quem não domine a tempo as novas ferramentas. É o mesmo temor que o das empresas: ficar para trás.
Mas também há preocupações de outra ordem. Num estudo da Spring Health com mais de 1500 trabalhadores em cinco países:
- 24% dizem que a sobrecarga de informação relacionada com IA afetou a sua saúde mental.
- 23% relatam uma menor sensação de controlo sobre o futuro.
- 19% dizem sentir maior stress relacionado com o trabalho ou com o equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Mais do que um problema de formação, o que estes números mostram são pessoas a tentar perceber quanto ainda vale aquilo que sabem. E, no processo, a questionar a sua própria identidade – não só enquanto profissionais, mas enquanto pessoas.
O desafio da IA vai além da tecnologia. É também identitário e cultural.
Agora imagine esse questionamento existencial, com toda a ansiedade que acarreta, a acontecer em larga escala nas empresas. Será que estamos a avaliar bem o impacto que pode ter em termos de cultura organizacional?
Há uma resposta cor-de-rosa para isso. A IA, libertando-nos das tarefas mais repetitivas e chatas, vai levar-nos a redescobrir o que nos torna humanos.
É uma ideia muito linda. Mas o que significa “redescobrir o humano” para quem passou anos a construir uma competência, e agora descobre que em seis meses estará obsoleta?
Em qualquer empresa, cada novo colaborador que entra pode enriquecer a cultura existente com novas competências, perspetivas e formas de trabalhar. Mas também pode introduzir ruído, alterando relações, formas de decidir, equilíbrios de poder.
Numa cultura empresarial saudável esse era, até aqui, um risco normal e gerível. Mas como será com a IA? A sua adoção em larga escala equivale à entrada simultânea de um exército de novos colaboradores. Disponíveis a qualquer hora. Capazes de prodígios de performance. E com poderes que “os outros” colaboradores, num primeiro momento, nem sabem muito bem quais são.
Alguma dúvida de que isto pode afetar a cultura de uma empresa?
O impacto da IA na cultura? Para já, ninguém sabe.
Segundo um estudo do World Economic Forum, a maior parte dos executivos de topo acredita que a IA trará uma mudança cultural. Na visão deles, uma mudança orientada para mais inovação.
Fico feliz por serem tão otimistas. Mas será esse o único impacto a esperar?
No 2025 US CEO Outlook, da KPMG, mais de metade dos CEOs inquiridos manifestou preocupação com o impacto da IA na cultura das suas organizações. Mas o dado inquietante vem de outros estudos, que indicam um gap significativo entre as perceções da liderança e as dos trabalhadores – estes tendencialmente mais receosos do que confiantes nos efeitos da inteligência artificial nas suas perspetivas profissionais.
Esta distância entre a ambição das organizações e o sentimento dos utilizadores mostra que a promessa da IA “centrada no humano” ainda está por verificar.
Seria fácil atribuir estas dissonâncias à simples falta de abertura para uma tecnologia com um potencial de transformação que ainda ninguém consegue avaliar. Ou seja, à boa e velha resistência à mudança.
Até pode ser. Mas, quando as pessoas não sabem quais das suas competências serão valorizadas, que tarefas mudarão, que espaço terão para aprender ou como serão tomadas as decisões, a resistência até faz sentido. E a última coisa que os líderes deveriam fazer é ignorá-la – a não ser que queiram gerir empresas marcadas por ansiedade e desconfiança.
Hoje, a pressão do mercado é para que a IA seja adotada rápido. Quanto mais, melhor. Mas se esse “rápido” significar sem critério, passando por cima de cautelas e medos legítimos, há o risco de fragilizar a confiança, destruir a motivação e repelir o talento – que, paradoxalmente, na era da IA será mais valioso do que nunca.
Ok, mas então o que fazer?
Não tenho uma resposta pronta para esta tensão. Mas sei que o primeiro passo é admitir que ela existe. E falar dela com transparência.
Quanto mais todos souberem que decisões estão a ser tomadas, que partes do trabalho vão mudar, que apoio haverá para aprender, menos traumática será a travessia. E menos danosa para a cultura da organização.
Na sua empresa, esta conversa já começou?