Sabe quem está a torcer pela sua empresa?

15 Novembro
Se não sabe quem torce pela sua empresa, talvez devesse saber. Porque uma empresa que tem quem torça por ela – ou seja, adeptos, ou fãs – tem a vida muito mais facilitada do que uma que não tem. E ter adeptos é algo que está ao alcance de todas as organizações, embora só algumas se lembrem disso.
Por Jayme Kopke

 

Não gostar de futebol tem algumas desvantagens. Fico de fora de muitas conversas, e às vezes nem faço ideia do que estão a falar à minha volta.

Mas também me dá alguns privilégios. Por exemplo, o de ver em toda a sua estranheza alguns fenómenos ligados à bola.

O episódio, por exemplo, que foi notícia há uns meses, da venda do Cristiano Ronaldo para o Juventus. Não é estranho um simples atleta valer tantos milhões para um clube?

Eu sei, o Ronaldo não é “um simples atleta”. E a explicação, como já tinha acontecido na venda de Neymar para o Paris Saint-Germain, costuma vir na semana seguinte.

“Só na primeira semana o clube vendeu 30 milhões em camisolas”.

O jogador nem entrou em campo e o investimento já está no bom caminho para gerar retorno, a uma velocidade impressionante.

Porquê? Porque tem muitos fãs. E os fãs são capazes de fazer coisas incríveis para mostrar ao mundo a sua paixão.

E a sua empresa, tem adeptos?

Fique tranquilo: não vou sugerir que a sua empresa consiga ter tantos fãs como o Ronaldo. Mas a ideia de ter quem torça por ela – em vez de apenas relações de negócio – pode ser poderosa para o seu negócio.

Só por existirem, todas as empresas criam relações com muita gente. Colaboradores, clientes, fornecedores, parceiros de negócio, investidores…

Quantos desses vínculos podem evoluir para uma ligação como a que o adepto tem com quem admira?

Há muitas vantagens. O fã do Ronaldo gosta dele mesmo quando erra um pénalti. Mesmo que vá jogar para uma equipa desconhecida. Mesmo quando se aposentar. Entre o ídolo e o adepto há um contrato implícito que tem por ponto de partida o desempenho objetivo, mas que vai muito além disso.

Para a sua marca é importante ter clientes fiéis, mas melhor ainda é ter adeptos. Pessoas que gostam dela, inicialmente, porque aprovam o seu desempenho. Mas que, depois, gostam porque sim.

A ordem, aliás, frequentemente é a inversa: o fã primeiro gosta da marca. Quando a usa é já com uma predisposição favorável, e então aprova, sem surpresa, o seu desempenho.

Isto não torna apenas mais fácil conseguir clientes, colaboradores e parceiros. É também um seguro para os momentos difíceis. Adeptos xingam, reclamam, até podem vaiar, mas relutam em abandonam o seu clube.

Tudo isto também vale para as empresas porque as relações de negócio não se baseiam principalmente na razão.

Fazemos negócio com pessoas com quem nos identificamos. Um adepto é alguém que se identifica – com outra pessoa, com um clube, com um país… Porque não com a sua empresa?

“OK, mas a minha empresa não é o Ronaldo”

Algumas marcas de consumo têm verdadeiros adeptos. Qual é a diferença, por exemplo, entre passar horas na fila para ser o primeiro a ter um iphone e sofrer por um clube de futebol? Este é o caso extremo, claro, mas há mais, numa escala menor.

Nos mercados business-to-business esta devoção por uma marca é mais rara, mas não há razão para não acontecer. Até porque os recursos para criar e cultivar adeptos nunca estiveram tão ao alcance de todo o tipo de empresas.

Com os meios digitais, todas podem comunicar com uma frequência e intensidade inéditas. Podem mostrar produtos e serviços. Podem partilhar o que sabem. Podem, principalmente, propor às suas audiências algo com que se identifiquem.

Todos nós adoramos criar identificações, juntarmo-nos em torno de algo. Gostamos de ser adeptos: adeptos de uma ideia, de uma causa, de um hábito, de uma forma de ver o mundo, de uma ambição, de um estilo…

Algumas dessas identificações são fluidas e efémeras. Outras são duráveis. Mas todas nascem de algo que alguém partilhou connosco – de um estímulo que nos chega através de algum tipo de comunicação.

Ser a fonte de alguns desses estímulos está perfeitamente ao alcance da sua empresa. Pense nisto: o que é que pode incluir na sua comunicação que permita que alguém se identifique com ela?

Pode ser uma história. Uma opinião. Algo que sabe e que a sua audiência também deveria saber. Algo simples mas suficientemente interessante para justificar um email, um post, um vídeo…

Nunca houve tantas formas de falar com quem é importante para a sua empresa. Sugiro que o faça hoje. E amanhã – e não pare mais. Pouco a pouco, vai ver colaboradores, clientes, parceiros de negócio e até desconhecidos que olham de outra forma para a sua empresa. Começam a admirá-la. A identificar-se. A torcer por ela.

Fonte: Briefing

O artigo de opinião de Jayme Kopke, diretor geral e criativo da Hamlet, foi publicado na Briefing de Outubro de 2019.