Uma batalha para vencer em casa

Briefing – 03-12-2015

Há uns anos, a Hamlet foi chamada a montar e comunicar um evento interno de um banco. Era uma festa que juntaria toda a empresa, sede e balcões, em torno do “dia da saúde”, ou parecido: haveria atividades lúdicas, ações de consciencialização e muito convívio.

O tema era só um pretexto: o objetivo mesmo era cumprir um ritual, vindo de anos anteriores, que se mostrara eficaz a motivar os colaboradores, criar laços entre áreas que pouco interagiam, aumentar o orgulho de pertencer à empresa.

Com o evento planeado e orçamentado, só faltava a diretora de recursos humanos ter a bênção superior – o que, pela experiência passada, deveria ser quase uma formalidade.

Mas não foi. Quando ela voltou da sala da administração, ficou claro que a iniciativa, que nos outros anos resultara tão bem, seria esquecida desta vez.

O que eu tinha acabado de ver ali provavelmente repetiu-se em muitos outros gabinetes na mesma altura. Estávamos em 2010, e a crise à porta assustava as empresas. A ordem era cortar – e a comunicação interna era o primeiro alvo das machadadas.

Por um lado compreende-se. O raciocínio era igual ao das famílias que, nas mesmas circunstâncias, cortaram nos cuidados de saúde, na manutenção da casa ou do carro. Pode parecer racional, inevitável até – mas opções destas pagam-se, e às vezes mais cedo do que o esperado.

Em qualquer empresa, e nem precisa ser grande, ter resultados acima da média depende muitas vezes de fatores que não são óbvios nos relatórios de gestão. Coisas impalpáveis como a motivação. O alinhamento com os objetivos da empresa. A disponibilidade dos colaboradores para… colaborar.

Um estudo de há alguns anos da FDS International (hoje Futurethinking) mostrou como em muitos países desenvolvidos a norma é as pessoas detestarem o que fazem. Outro estudo conclui o mesmo para 70% dos americanos. E isto antes do pânico de 2008. Em tempo de crise, quando os trabalhadores têm de lidar com perdas de salário, medo do desemprego, gente despedida à sua volta, os números podem ser ainda mais deprimentes.

Haverá quem se conforme com estatísticas assim: são um dado da vida. A obrigação de trabalhar não foi o nosso castigo original? Mas, para as empresas, elas significam um tremendo desperdício.

Pessoas que não encontram motivação nem propósito nas tarefas que cumprem dia após dia dificilmente serão excelentes. Serão mais propensas a erros, a procedimentos desleixados, dedicarão menos horas a trabalhar e mais a fumar, lá fora, enquanto dizem mal da própria empresa. Não terão iniciativa, não reportarão situações a corrigir, não se empenharão em cooperar com colegas e chefias ou em converter problemas em oportunidades.

Uma boa comunicação interna pode resolver tudo isso? Provavelmente não. Mas se for parte de uma política de recursos humanos bem pensada, em que a relação da empresa com o colaborador é nutrida desde a raiz, pode ajudar bastante. Não falo, obviamente, de iniciativas pontuais e descoordenadas, mas de uma comunicação interna planeada, com objetivos e estratégias definidas. Sei, por já o ter visto em mais de uma empresa, que pensar dessa forma a comunicação com os colaboradores faz uma grande diferença.

Com a economia, quem sabe, a melhorar um bocadinho, é de esperar que o cuidado com a comunicação interna volte a encontrar espaço dentro das empresas. Num momento em que a batalha da competitividade é tão decisiva, contar com colaboradores motivados e alinhados com as suas organizações é uma simples questão de sobrevivência.

Fonte: Briefing